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Hoje me torno um hebreu moderno

A primeira pessoa a ser chamada de “hebreu” foi Abraão (Gn 14.13). Hebreu é alguém que atravessa limites, que cruza fronteiras, que está no caminho, sempre. A Bíblia diz que, “... pela fé, os antigos obtiveram bom testemunho” na caminhada da fé (Hb 11.2). Fé é o que experimentamos com ou sem emoções. Ser um hebreu hoje é fazer o que fez Abraão quando Deus o chamou. Ele apenas “obedeceu” (Hb 11.8). Hoje me torno um hebreu moderno. Leio a Bíblia há trinta e dois anos, mas nos últimos anos tenho tido experiências nunca antes vividas. Sinto que estou me convertendo de novo ao Evangelho de Jesus.

A Bíblia me fala hoje de uma maneira diferente. Cada dia cresce em mim a consciência de que a chamada “igreja evangélica” caducou, se institucionalizou, tornou-se, infelizmente, uma religião. Estou rompendo com o que sempre chamei de Igreja de Jesus. Hoje tenho outros olhos e convencido estou que essa coisa tem se tornado realmente um ópio. Tenho certeza que não seria aceito como membro de uma "igreja evangélica" hoje em dia. Não me encaixaria na gaiolinha deles.

Eu poderia encher páginas inteiras aqui para descrever meu repúdio a tudo que aí está sendo chamado de Cristianismo e igreja, mas me pouparei e pouparei a tantos que não suportariam minhas palavras. Aliás, crente é o bicho mais sensível que já vi, tem nervo exposto. Sei do que estou falando, falo do que tenho vivido. A oração da “igreja” hoje deveria ser: “Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos” (Lm 5.21). Chega!!!

A Bíblia diz que “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11.6). Estou aprendendo a viver pela fé. Na verdade estou apostatando “da fé”, para viver apenas “pela fé”, pois é assim que vive o justo (Rm 1.17). Hoje fui demitido da empresa igreja sem aviso prévio. Mas, estou felicíssimo. Estou me libertando da religião evangélica. Virei um estranho para a igreja. Não caibo mais na estrutura eclesiástica de nenhuma igreja. A aplicação do evangelho, a vivência do Novo Testamento é o vinho novo que rompe os odres velhos das igrejas. Os panos velhos da religião dos crentes não suportam o remendo novo do Evangelho (Lc 5.36-39). Fui rejeitado antes de expor o Evangelho sem a parafernália da igreja. Ainda bem, pois as igrejas, incluindo a que estou deixando, depois de pastoreá-la por vinte e um anos não sobrevivem apenas de Bíblia. Sem os aparatos denominacionais, o tradicionalismo oco, as barganhas com Deus (todas rejeitadas por ele), a fé linear, e tantas outras coisas fúteis, a igreja evangélica sucumbe.

Louvo a Deus por minha família. Minha esposa está sofrendo por esse momento de frieza e abandono fraterno. Minhas filhas são maravilhosas, estão tristes e frustradas com essa coisa toda, elas não têm culpa de serem filhas de um pastor, mas continuamos juntos passando por esse vale de lágrimas. Agora entendo porque muitos filhos de pastor têm ojeriza de igreja.

Não posso terminar esse artigo de forma negativa, pois não estou falando contra Jesus, mas contra os “jesuses” anunciados por aí; não estou escrevendo contra o Consolador Espírito Santo, mas contra os espíritos que atuam dentro de muitos templos evangélicos; não estou falando contra o doce Evangelho de Jesus, mas contra o evangelho diferente tão propalado hoje em dia. Infelizmente o diabo tem corrompido a mente da “crentaiada” para que não vivam a simplicidade e pureza devidas a Cristo (2Co 11.3-4). Viver em Jesus é maravilhoso. É uma vida sem retorno (Jo 6.67-68). Infelizmente as igrejas estão cheias de pessoas vazias que não conhecem a Jesus. Para mim não dá mais.

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