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Relevância pastoral

A leitura do livro “O Pastor Contemplativo”, me atraiu para outros livros de Eugene Peterson. Esse livro me fez muito bem e achei interessante a informação que Eugene Peterson “decidiu desde o início nunca pastorear uma igreja com mais membros do que pudesse chamar pelo nome”. É claro que ninguém deve fazer disso uma regra. Mas não deixa de ser interessante o espírito dessa atitude. Jesus disse que o pastor chama suas ovelhas pelo nome e as conduz. Sua igreja tinha cerca de trezentos membros. As pessoas precisam de pastoreio, pois estão aflitas e exaustas (Mt 9.36). Conhecer as pessoas deve ser um dos valores de um pastor.

“Eugene domina as línguas bíblicas”. É muito bom e seguro ler um autor tão bem preparado academicamente como Eugene Peterson. Isso fica melhor ainda pela simplicidade e humildade como ele fala com o leitor. Seu preparo e experiência têm muito a oferecer para os pastores que estão em plena atividade ministerial. Ele é um mestre bem capaz.

“A graça está em toda parte”. Gostei dessa citação do “Diário de um sacerdote camponês”. Ah! Que Deus nos dê essa graça de ver a graça por onde quer que andemos. Não gosto de más notícias. Parece que ninguém gosta, mas vejo sempre as pessoas comentando más notícias. Quero ter olhos de graça, ouvidos de graça, mãos de graça, pés de graça, um coração cheio de graça. De Jesus está escrito: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). Ao ter uma visão da glória de Deus, o profeta Isaías disse: “Toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6.3). Quero ver a graça em toda parte, mesmo que a miséria esteja nítida diante de nós. Mais que uma utopia, é uma realidade ver, sentir, e compartilhar a graça de Deus com outros.

A palavra “Pastor” tem sido desgastada pelo modo como muitos que se dizem pastores têm vivido. Precisamos mais que nunca resgatar a respeitabilidade, a credibilidade e a amabilidade que essa palavra merece. Eugene fala do pastor ocioso como sendo alguém tão consciente de sua missão, que não se permite receber uma agenda vinda de outros. Ele sabe para o que veio e sabe qual é sua missão. Ele tem tempo para orar, para a Palavra (At 6.4), e não se deixa envolver com a vaidade tão comum em nossos dias de que para ser um pastor de valor, a pessoa tem que ser muito ocupada. Um pastor agitado não tem tempo para as coisas mais importantes. O pastor precisa de uma ociosidade tal que lhe permita ter muito tempo para orar, se encharcar com a Bíblia, preparar mensagens e ouvir as pessoas. Ninguém vai conseguir abrir o coração com um pastor que sempre mostra estar apressado pensando no próximo compromisso.

Mas como conseguir esse tempo que é cada vez mais escasso entre os pastores? A resposta é: criando minha agenda. Ela me possibilita ficar "ocioso" para orar, pregar e ouvir. Se eu não tiver minha própria agenda com as minhas prioridades, facilmente encontrarei pessoas que farão uma para mim. Um pastor de valor precisa se aquietar e descansar na presença de Deus (Sl 46.10; Is 30.15).

O pastor jamais deve perder sua relevância, pois o evangelho o torna subversivo em transformações benéficas. Jesus foi o maior subversivo. Ele trouxe vida, ele falou para fora, ele falou para o mundo. Suas parábolas ilustram isso. Elas falam sobre solo e semente, refeições, moedas, ovelhas, bandidos e vítimas, fazendeiros e comerciantes. Entre as quarenta parábolas registradas nos evangelhos, só uma delas tem como ambiente a igreja e só duas mencionam o nome de Deus. A oração é a grande ferramenta da subversão. Gosto de pensar no texto que diz: “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito” (1Tm 2.12). Crer que a oração pode nos proporcionar uma vida tranquila e mansa com piedade e respeito num mundo tão desequilibrado como esse nosso, é ver a possibilidade de ser um subversivo do bem.

John Piper disse: “Nós pastores estamos sendo mortos pela profissionalização do ministério pastoral. A mentalidade do profissional não é a mentalidade do profeta. Isso não é a mentalidade de um servo de Cristo. O profissionalismo não tem nada a ver com a essência e o coração do ministério cristão. Quanto mais profissionais queremos ser, mais morte espiritual nós vamos trazer para o chamado. Porque não há como imitar uma criança sendo profissional, não há como ter um coração terno sendo profissional, não há como ansiar por Deus sendo profissional. Irmãos, vocês não são profissionais. Vocês são apátridas. Vocês são extra-terrestres e exilados do mundo. Nossa cidadania está no céu, onde esperamos ansiosamente pelo Senhor (Fp. 3:20). Você não pode profissionalizar o amor pela sua manifestação, sem o matar. E está sendo morto. O mundo dita a agenda do homem profissional. Deus dita a agenda do homem espiritual. O vinho forte de Jesus Cristo explode o vinho carnal do profissionalismo”.

O que o pastor faz entre os domingos? Os seis dias entre um domingo e outro têm a mesma importância dos domingos, mesmo que não sejam tão valorizados. O ministério pastoral no decorrer da semana é basicamente a cura de almas e não prioritariamente a administração da igreja. Como pastor, devo ensinar as pessoas a se relacionarem com Deus e umas com as outras, para depois pensar em informação e motivação. Depois de muitos anos de pastorado, percebi que estava guiando a igreja com muita informação e pouca intimidade com as pessoas. A Bíblia nos alerta sobre conversas vazias, mas não posso deixar de reconhecer que a vida acontece nas coisas comuns. Então, como pastor, devo ser atencioso com o contexto diário da vida das pessoas. Isso quer dizer que não posso ignorar as conversas triviais. Como pastor, devo ser humilde. A palavra humildade significa ficar perto do solo (húmus), das pessoas, da vida diária, do que está acontecendo em toda a sua realidade. Não devo ficar preso a conversas triviais, mas não posso deixar de admitir que algumas coisas são percebidas apenas na informalidade.

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